FASCISMO EM GOTAS – Uma gota de introdução

Desde o início da campanha eleitoral de 2018 me intrigo com o cuidado minucioso e a insistência com que a extrema-direita vem insuflando – e tentando fixar por repetição – diversas trocas de papéis e significados, patrocinando uma inversão de valores e sentidos que só encontra paralelo na “novafala” de Orwell.

É evidente que qualquer apoio à imprecisão semântica ajuda na luta de desconstrução empreendida pelo fascismo contra a cultura e o conhecimento, mas, campanhas midiáticas pela promoção de “conceitos” como o “partido nazista que era de esquerda” (só para dar um exemplo) não me parecem poder ser explicadas somente por esta ótica da desconstrução.

Frente a esta e outras perplexidades, resolvi aprofundar-me no estudo das características (e do sistema ideológico, se é que existe um sistema) subjacentes às formas que o fascismo assume na atualidade, trazendo cada traço com seus exemplos, particularmente os dessa versão de fascismo tropical que estamos vivendo.

Nestas gotas, venho apresentar, aos poucos interessados e interessadas em acompanhar-me, uma visão (quase sistematizada) do sistema político a que estou chamando “fascismo”, tratando, em particular, da realidade política do Brasil atual.

Como o fascismo é entremeado de contradições filosóficas, sociais e econômicas, ele não constitui, ao menos de maneira completa, um sistema filosófico ou político, no sentido estrito que os especialistas dessas disciplinas adotam. Então, as gotas surgem como comentários a respeito dos diversos aspectos, muitas vezes contraditórios, que o sistema de crenças e códigos de ação fascistas tem apresentado no Brasil e em outros países do mundo.

Além de enumerar as características que, tanto no seu conjunto, como em suas contradições, definem “fascismo,” vou aproveitar para fazer algumas digressões sobre conceitos limítrofes e por vezes sobrepostos, que são importantes balizadores de nosso objeto de estudo e nos ajudarão a responder importantes perguntas, como aquelas que Sheakespeare nos faz, por exemplo, por via da deliciosa imaginação de Stephen Greenblatt:

–Porque um grande número de pessoas, conscientemente, aceita ser enganada?

–Porque alguém, ele [Sheakespeare] se pergunta, seria atraído por um líder manifestamente inadequado para governar, alguém perigosamente impulsivo ou maliciosamente conivente ou indiferente com a verdade?

Tirania, ditadura, hierarquias, mito. Chegaremos lá. Uma gota de cada vez, sem uma periodicidade fixa (mas prometo, pelo menos, gotejar semanalmente!)

Por ora, tratando-se apenas de introduzir o assunto, vamos nos limitar a citar uma observação de Jason Stanley (Yale) que nos dá um pouco do sabor e da dimensão do desafio à nossa frente: “A política fascista não necessariamente leva a um Estado explicitamente fascista [ditatorial,] mas é perigosa, de qualquer modo.”

Finalmente, quero assegurar que não vou cansá-los com um excesso de referências, já que não queremos aqui um trabalho acadêmico, mas um punhado de conhecimentos passados “em conta-gotas.” Vou, então, me limitar a indicar a bibliografia básica que fornece os elementos teóricos das gotas que virão, assegurando-lhes de que nada que aparecerá por aqui será “achismo” (e muito pouco, excetuando talvez os exemplos tupiniquins, será ideia minha.) Quem tiver gosto pela leitura e amor pela democracia, recomendo que leia, pelo menos, os  dois primeiros volumes. Para os que relutam em enfrentar volumes, as referências jornalísticas que irei fazendo nas gotas serão mais acessíveis e confortáveis, (sempre com links ou indicação de fontes e n-a-d-a de fakenews!) embora eu duvide que possam substituir a sabedoria dos especialistas.

De qualquer forma, muito obrigado a quem me seguiu até aqui! E até a primeira gota!

Bibliografia básica:

Stanley, Jason. “How Fascism Works: The Politics of Us and Them.” Ed. Handom House, N.Y. 1a ed. 2018. Há tradução em português: “Como Funciona o Fascismo.” Ed. L&PM.

Levitsky, Steven; Ziblat, Daniel. “How Democracies Die.” Ed. Crown, N.Y.1a ed. 2018. Há tradução em português: “Como as Democracias Morrem.” Ed. Zahar.

Albright, Madeleine. “Fascism: A Warning.” Ed. HarperCollins Pub. N.Y. 1a ed. 2018. Há tradução em português: “Fascismo – Um Alerta.” Ed. Critica.

Hett, Benjamin Carter. “The Death of Democracy – Hitler´s Rise to Power and the Downfall of the Weimar Republic.”  Ed. Henry Holt & Co. 1a ed. 2018. Não há tradução para o português.

Kakutani, Michiko. “The Death of Truth – Notes on Falsehood in the Age of Trump.” Ed. Tim Duggan Books, N.Y. 1a ed. 2018. Há tradução em português: “A Morte da Verdade.”  Ed. Intrínseca.

Eco, Humberto. “O Fascismo Eterno.” Trad. Eliana Aguiar. Ed. Record, RJ. 1a ed. 2018. Também está disponível na internet.

Greenblatt, Stephen. “Tyrant – Shakespeare on Politics.” Ed. W.W. Norton & Co. N.Y. 1a ed. 2018. Não há tradução em português.

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