FASCISMO EM GOTAS! – O mitólogo Olavo de Carvalho.

Como já vimos, o fascismo não possui uma base ideológica coesa e estruturada. Mais do que isso, adianto-lhes que ele se constitui, na verdade, de uma colcha de retalhos filosófica, atrelada a um feixe desconexo de condutas e estratégias de ação. Por isso, torna-se impossível estruturar uma apresentação coordenada e organizada de exposição, posto que o próprio objeto de estudo não possui tais qualidades e não nos oferece uma ordem lógica ou natural, pela qual possamos expor sua essência. Então, numa escolha arbitrária, começarei por discutir como o fascismo se reproduz no tempo e no espaço, como ele resiste, tal como uma infecção dormente, nas épocas em que o humanismo e a democracia prevalecem, e como ressurge virulento, na menor oportunidade de refluxo democrático, nunca igual ao que foi no passado, mas ainda e sempre fascismo.

“Toda época tem o seu próprio fascismo e nós podemos ver os sinais de alerta onde quer que a concentração de poder negue aos cidadãos a possibilidade e os meios de expressar-se e agir conforme suas próprias vontades. Há muitas maneiras de chegar a este ponto, não apenas por meio do terror intimidatório da polícia, mas também pela via de negar e distorcer as informações, de solapar os sistemas de justiça, de paralisar o sistema de educação, e de difundir, numa miríade de formas sutis, a nostalgia de um mundo onde a ordem reinaria e onde a segurança de poucos e privilegiados dependeria do trabalho e do silêncio forçados de muitos.”  [de Primo Levi, num ensaio de 1974, citado num comentário do professor de filosofia e humanidades Carlin Romano (de 22/05/2011) sobre o Primo Levi, para o site The Chronicle of Higher Education]

Sim. Como observa Primo Levi, o fascismo é adaptativo, mutante. Mas apresenta sempre seus sinais indistinguíveis, como o apelo ao passado mítico, o uso da propaganda massiva, o apelo à irrealidade e à vitimização, além do sempre presente anti-intelectualismo e outras pérolas que Levi não citou aí.

Num paralelo entre os dias de hoje e os de ontem, podemos observar que os movimentos fascistas sempre têm um guru – um ideólogo, embora eles fujam dessa denominação como o diabo da cruz – que cuida das narrativas míticas e da propaganda fascista: Göring no nazismo; Steve Bannon, nos EUA, e Olavo de Carvalho, no Brasil, hoje. Hitler adotou, para o nazismo de então, um povo alemão mítico que nunca existiu, frouxamente baseado na existência hipotética de uma tribo ariana, no passado distante, que foi tornada “real” pela propaganda de Göring. Trump, por sua vez, lançou seus “EUA Grandes”, num passado mais próximo, mas também não muito preciso, ao qual todos os americanos quereriam retornar, conforme propagado pela máquina de divulgação em redes sociais de seu “mitólogo”, Bannon. Bolsonaro escolheu enaltecer o governo militar. Não aquele que estudamos na história do Brasil, governo tosco, violento e autoritário, mas um outro, imaginário, que “era” justo, honesto e viril, onde o execrável coronel Brilhante Ustra “era” um herói. Nós voltaremos a este aspecto do passado mítico noutra oportunidade mas, por enquanto, nos contentaremos em observar que, para cada mito, há um mitólogo.

Olavo de Carvalho é uma figura que se fez na mídia, o mitólogo brasileiro. Segundo nos consta, não tem formação acadêmica além da 8ª série do ensino fundamental, mas se auto-intitula “filósofo.” Diz disparates em público, tais como afirmar que a Terra é plana e que Isaac Newton acreditava nisso, mas depois desmente, sob a desculpa de que se tratava de simples provocação, “para ver até que ponto as pessoas acreditavam.” A respeito, duas observações se fazem prementes: primeira, que, provocação ou não, seu vídeo atraíu uma multitude de terraplanistas e outros malucos para sua esfera de influência e doutrinação, para os quais sua reconsideração não significa nada; segunda, que a prática, de afirmar disparates e depois dizer que não era isso que queria dizer, faz parte das ferramentes de irrealidade fascista, técnica que seu discípulo mais famoso, Bolsonaro, aprendeu tão bem.

Para não me alongar demais aqui, vou comentar brevemente só duas de suas mais bizarras noções em ciência, externadas no vídeo já citado.

Na primeira asneira, ele afirma que o “conhecimento esotérico” estaria na base da ciência e que a prática científica não seria possível somente com a aplicação do método científico, ao que chama, numa contradição risível, de “mitologia científica, esta pseudo-religião”. Na verdade, ninguém “esconde” o pensamento esotérico de Newton e seus companheiros do passado, como ele diz. Apenas não se traz, aos manuais escolares e aos compêndios, a discussão “alquímica” de Newton, porque ela não tem a menor importância para o estudo e o conhecimento científicos. Qualquer estudo sério de história de ciência registra as atividades ligadas à alquimia, dele e de outros cientistas clássicos, o que está expresso, inclusive, no verbete Isaac Newton da Wikipedia. Isso é conhecido e evidente. Assim como a astronomia nasceu da astrologia, e muitos dos primeiros astrônomos praticavam as duas formas de estudo dos astros, a física nasceu da alquimia e os cientistas da época praticavam ambas. Agora, disso dizer que o “conhecimento alquímico” era a forma dominante no trabalho que levou ao Principia é troçar da nossa inteligência.

Na segunda asneira, vemos o “filósofo” afirmar que a experiência de Michelson-Morley só poderia ser explicada por uma de duas maneiras: por uma Terra imóvel ou por uma modificação da “física inteira,” o que teria levado Einstein a propor, como única saída (sem Terra plana), a relatividade. Veja o que foi a experiência no link acima; ela não põe em xeque o movimento da Terra (asneira que nenhum cientista se daria ao trabalho de “testar novamente”), mas sim a existência do éter newtoniano. Sempre bom lembrar, ademais, que a relatividade de Einstein não mudou a física inteira (não no sentido de subverter ou demolir a física newtoniana e trocá-la por outra coisa incompatível com ela). A ciência não funciona assim, subvertendo, mas sim construindo, um pedacinho de cada vez. Einstein não destruiu Newton, apenas aparou arestas e corrigiu a incompatibilidade do sistema newtoniano com o do eletromagnetismo de Maxwell: um grande avanço, no sentido de acréscimo. E assim a ciência funciona.

As declarações estapafúrdias de Olavo de Carvalho ganharam adeptos, mas também acabaram provocando reações na mídia, como foi o caso do bom vídeo-documentário produzido pelo canal Meteoro no YouTube. Vale a pena assistir.

Agum tempo depois, foi a vez do prof. Paulo Ghiraldelli, filósofo de verdade, além de escritor, jornalista, tradutor e palestrante, reagir. Neste vídeo um pouco longo, mas contundente, este Dr. pela PUC-SP, bacharel em filosofia e educação física e pós-doutor em medicina social, demole a pretensa “filosofia” do mitólogo e expõe suas profundas deficiências de formação.

Entretanto, o melhor ensinamento do vídeo do Prof. Ghiraldelli não está exatamente na críticas à falta de formação acadêmica ou à incorreção do pensamento de Olavo de Carvalho, mas nos comentários que faz sobre a melhor postura filosófica frente ao conhecimento escrito. Ghiraldelli ensina que que a literatura não foi feita para ser lida como manual, mas como metáfora. E para prová-lo, como exemplo, compartilha em pdf um livreto de Richard Rorty – Duas Utopias – uma pequena jóia que une, metaforicamente, o Manifesto Comunista ao Novo Testamento:

“A lembrança dos porões da Inquisição e das salas de interrogatório da KGB, da cobiça e arrogância impiedosas do clero cristão e da nomenclatura comunista deve, de fato, advertir-nos contra o perigo de depositar o poder nas mãos de algumas pessoas que alegam saber o que Deus, ou a História, querem.”

E, ao final, conclui:

“Talvez algum dia tenhamos um novo texto para dar a nossas crianças – um que se abstenha de previsões, mas expresse o mesmo anseio por fraternidade que o Novo Testamento e que esteja cheio de acuradas descrições das formas mais recentes de desumanidade, como o “Manifesto”. Nesse ínterim, só temos a agradecer a esses dois textos, que nos ajudaram a ser pessoas melhores e a superar, em certa medida, nosso egoísmo grosseiro e nosso sadismo cultivado.”

Resta explicar porque todos estes mitólogos fascistas, seja no passado ou no presente, sempre constróem um passado mítico que nunca foi, nunca existiu. Assunto para a próxima gota.

3 comentários

  1. Luiz

    tuas resenhas e análises sobre o temas estão ótimas!
    Tudo a ver com esse obscuro retrocesso sociopolitico ao qual estamos submetidos.
    Estava a estudar a “defesa” pela privatização do ensino superior e, ontem, dialogava sobre isso com um amigo, professor da UFES. Nefasto!
    Pior ainda se bolsonaristas de plantão mudarem as atuais regras para a nomeação dos reitores das universidades federais! Será a derrocada do acesso ao ensino superior público e gratuito tão duramente conquistado!
    Deixo um link de um artigo interessante publicado no jornal da UNICAMP
    http://www.unicamp.br /ju/notícias/2017/11/27/o

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