FASCISMO EM GOTAS! – Propaganda fascista I

O sapo barbudo.

Lula&Marx
Luiz Inácio Lula da Silva e Karl Marx (Fotos – Lula: revista Época; Marx: John Jabez Edwin Mayall)

Muito tempo antes de Lula, num distante reino da Europa, havia outro sapo barbudo, chamado Karl Marx. Sapo esperto, desenvolveu e inovou sobre uma ideia capciosa de outro sapo, este imberbe e que respondia por Hegel, chamada fetichismo. Para sermos justos, devemos dizer que Hegel, além de não ostentar uma barba, também não era sapo de verdade, porque agia no campo insuspeito da filosofia e da religião (e não das fantasias sexuais, como o nome “fetichismo” deve ter sugerido a você, seu safadinho…)

O termo hegeliano fetichismo se refere ao processo de “encantamento” dos elementos da natureza, que está na base e na origem de toda religião e acontece devido ao fato de que o ser humano, além de ser dotado de inteligência, também é possuidor de uma qualidade inata para a imaginação. Na origem, o fetichismo designa o processo de atribuição de características próprias de seres vivos (como vontade, humor, sentimento, fome e sede ou intenção) a elementos inanimados da natureza. Além disso, é importante observar que, ao ser generalizado, o conceito aponta para a criação de divindades. Resumindo (e simplificando) bastante, podemos descrever esta metamorfose assim: caçando na floresta primeva, o humano vê uma árvore ser fendida e incendiada por um raio; como não tinha explicação para o fato, imagina que há um ser etéreo (porque não é visto), que atirou esta coisa terrível, chamada raio, para destruir a árvore, ou, pior, para castigá-lo, a ele, caçador, que iria colher o fruto proibido daquela árvore (opa! Aí já é outra história), por ter pensado que fetichismo era safadeza! – pronto – Inventamos Deus!

O que o esperto sapo barbudo (que não é Lula, mas Marx) fez, então, foi pensar que a idéia do fetichismo podia ser trazida para o campo laico, de uma maneira que não envolvesse coisas vendidas no sex-shop. Para isso, ele identificou um processo mais genérico de “trasnsformar-se uma ideia em uma coisa”, que está por trás da noção de fetichismo e, com uma falta de criatividade que decerto não o valoriza, chamou-o de “coisificação” – ou, como preferem os marxistas, que gostam de ser dogmáticos, reificação (que quer dizer a mesma coisa: do latim, res, “coisa”).

Assim, ao estudar o funcionamento da sociedade ocidental, pós-revolução industrial, sapo Marx coçou sua copiosa barba e, depois de bem pensar, resolveu aplicar o conceito de reificação à economia de seu tempo, que era um capitalismo de caráter mais puramente industrial do que o que vemos hoje. Assim, ele observou que, de forma lenta, mas progressiva e contínua, os trabalhadores iam se especializando, fazendo uma parte cada vez mais pequena do processo que resultava em bens úteis para as pessoas, como comida e carros (sendo esta última indústria, aquela na qual sapo Lula já trabalhou).

Por exemplo, o padeiro de São Bernardo, amigo do Lula, de tanto amassar, fermentar a massa e cozer o pão, nem mais se lembrava de que seu processo de trabalho começava, na verdade, no plantio do trigo, numa terra a que ele não teria acesso (porque privada). Distraído pela vida dura que levava, nem tinha tempo de pensar que o trigo, depois de colhido (por outras pessoas), era beneficiado num moinho (que não era seu) e trazido, na forma de farinha (que alguém moeu e ensacou), para sua padaria (sendo transportado por alguém, que não vem ao caso o padeiro saber quem foi, porque já estava pago). Por sua vez, lembrou por um momento, o padeiro, sua padaria utilizava um forno que era seu (mas que não fora fabricado por ele e ainda estava sendo pago para o banco, ou para o banqueiro, sei lá; faz diferença?), que consumia lenha (que ele não lenhava, nem transportava) e, assim, como por magia, fazia o pão.

Então, com a astúcia que só um barbudo pode ter, sapo Marx percebeu que os trabalhadores, assim como o Lula (antes de perder o dedo), ficavam cada vez mais afastados de uma visão abrangente do processo produtivo, do qual participavam só num diminuto pedacinho, e passavam a perder a noção de que esta grande orquestração social resultava de um conjunto enorme de relações entre pessoas, dedicadas à produção de coisas necessárias à vida dos homens, e passavam, cada vez mais, a interpretar as características e resultados dessas relações sociais na produção, como se fossem atributos próprios dos bens produzidos e, ao fim e ao cabo, eram levados (por essa contínua coisificação) a interpretar, erroneamente, as próprias relações sociais envolvidas na produção, entre os homens, como sendo uma relação econômica entre coisas: dinheiro se relacionando com mercadorias. Ou seja, todos se viam envolvidos por um fetichismo da mercadoria.

Quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre estes conceitos importantes de economia, recomendo assistir este vídeo da professora Iná Camargo Costa, aposentada da FFLCH-USP, autora de diversos ensaios e livros sobre o teatro brasileiro e especializada na obra de Bertold Brecht:

Nele, ela discorre sobre a noção de Sociedade do Espetáculo, do filósofo Guy Debord, que estudou a lógica de dominação do capitalismo contemporâneo, em que o processo de acumulação de capital encontra-se muito mais avançado do que na época do nosso simpático sapo alemão, e discorre também sobre os conceitos aqui apresentados.

E, então, o que tem tudo isso a ver com propaganda fascista?

—Afirmo que tem tudo a ver! Mas, por ora, o mais importante é notar que, nesse nosso texto, que viemos trazendo de forma jocosa, sutil e subreptícia – como faria um bom sapo –, viemos também associando a figura do alemão Karl Marx ao nosso Lula, ambos sapos barbudos, embora Lula não tenha contribuído para nada do que afirmamos, nem professado publicamente, que eu saiba, qualquer concordância ou discordância sobre as ideias de reificação e fetichismo da mercadoria. E não venha me dizer que eu falei que Lula é marxista. Eu não falei.

Esta é só uma, das muitas maneiras como a propaganda fascista funciona.

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