FASCISMO EM GOTAS! – Propaganda fascista II

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Este foi o título da coluna do jornalista Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo de 10 de março de 2019, em que ele expõe a política de verborragia das presidências Trump e Bolsonaro e a falta de realizações reais de governo, também de ambos, sob o mote de que “falar não cozinha o arroz”. Está correto, claro, mas tem um problema, que é comum a toda a grande imprensa empresarial: o mito da imparcialidade.

Sim. A imparcialidade da imprensa é um mito.

Do início. Quando um jornalista aponta como fato que um líder fascista fala dispautérios, identifica não-problemas, e preocupa-se com questões irrelevantes, está falando a verdade. Todo líder fascista faz isso. Quanto denuncia as ações concretas desse fascista, que vão em desencontro aos dispautérios verbais que as motivaram, que transformam não-problemas em problemas reais e que fermentam questões irrelevantes até fazê-las crescerem e conformarem crises sociais importantes, também está falando a verdade. É tudo que um líder fascista faz. Entretanto, ao mostrar essas faces incongruentes da realidade, na forma de notícia “imparcial”, ele abandona qualquer tentativa de análise dos motivos subjacentes, pelos quais o fascista faz precisamente isso e não outra coisa, deixando no ar um clima de surrealismo. Isso não é uma crítica a este jornalista em particular, a quem muito respeito, mas à chamada “grande imprensa”, como sistema escravo da aparente imparcialidade, da qual o jornalista individual também não pode ser dissociado.

Vejamos a matéria do Clóvis Rossi. Ele diz que “se se interessasse mais em estudar os problemas do que tuitar, Trump saberia que a principal causa para a emigração em massa de centroamericanos é a violência em seus países” e então sugere que esta violência seria ampliada pela volumosa venda de armas estadunidenses para estes países. Tudo verdade. Mas, o leitor fica com a sensação de que o líder fascista seria ilógico ou burro, coisa que nenhum líder fascista é. Quando um político lança mão dos temores e preconceitos difusos de seu público-alvo para fazer declarações, ele não está sendo nem burro, nem ilógico. Muito ao contrário, está lançando mão de toda esperteza do mundo, para alcançar seus objetivos, como todo líder fascista faz. Trump, que não é burro, embora pareça ilógico, quer continuar a vender armas para os centroamericanos. Quer também manter o clima de terror racista da “ameaça populacional da imigração latina”. Tanto uma coisa, como a outra, têm motivos específicos e conscientes. E utilizar a última (ameaça) para afastar a atenção da primeira (venda de armas) é tudo, menos burrice. Mas Clóvis Rossi não poderia dizer o que escrevi acima na Folha de São Paulo, porque, no mínimo, seria “demasiado opinativo”.

Nosso problema é que isso tudo só fica visível se deixamos de lado a imparcialidade, a circunscrição do discurso jornalístico ao microcosmo da “notícia”, do fato localizado, específico e verificável. Para entender motivos subjacentes é imperioso afastar-se, mais um pouco, do fato imediato. É preciso ter distanciamento, coisa que o jornalismo empresarial não oferece. Frente a declarações que alinham não-problemas com políticas que os transformarão, ao serem implementadas, em problemas reais, a pretensa imparcialidade dos fatos anestesia o leitor. Diz a ele que o político é burro, quando não é; porque pressupõe, no seu discurso imparcial, que não seria plausível alguém pensar em propor políticas para resolver problemas que não existem, como forma de criá-los, ao invés de tentar resolver os já existentes.

Mas isso é, exatamente, o que um líder fascista faz.

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