FASCISMO EM GOTAS! —Irracionalidade.

Populismo e fascismo.

Alguém acha mesmo possível que o ex-presidente Lula teria-se deixado fotografar segurando um livro de ponta-cabeça?

A cada vez que vejo pessoas por mim conhecidas—pessoas comuns como eu e você—repassando postagens com conteúdos de falsidade gritante, de tão evidente, lembro-me do alerta com que Timothy David Snyder inicia o décimo capítulo de seu livro “Sobre a Tirania”: “Você se submete à tirania quando renuncia à diferença entre o que você quer ouvir e aquilo que é realmente o caso. Esta renúncia à realidade pode parecer natural e agradável, mas o resultado é a sua morte como indivíduo.” (On Tyranny, p. 66. Crown/Archetype, Kindle Ed.) Numa paráfrase muito próxima, poderíamos dizer que você se submete ao populismo quando renuncia à diferença entre o que você quer ouvir e aquilo que é realmente o caso. Em razão desta notável semelhança é que vemos o fascismo ser tão facilmente confundido com o mero populismo. Mas, note bem: embora todo fascismo seja populista, nem todo populismo é fascista.

No populismo comum, a morte da verdade não chega a ocorrer, porque o escopo e alcance da mentira é limitado. Nele, o único motivo das falsidades é ajudar a manter a ilusão e o apoio dos eleitores para a implementação de políticas específicas que, muitas vezes, nem atendem a seus reais interesses. Em tempos de funcionamento normal da democracia, poderemos ver populistas iludirem seus eleitores, mas apenas em tópicos restritos, às vezes prometendo realizações que não poderão concretizar ou tomando medidas inócuas ou, até, prejudiciais, que ao curso e ao cabo, serão desmascaradas. Tomemos como exemplo as histórias dos “fiscais do Sarney” e das políticas de congelamento de preços do Plano Cruzado, que aquele governo capitaneou. Após um sucesso inicial de público e crítica, veio o final desastroso, que seria previsível. Ocasionalmente, podemos até presenciar políticas populistas que, surpreendentemente, terminam produzindo efeitos reais sobre os males que visavam combater, como foi o caso da implantação das leis trabalhistas, por Getúlio Vargas, exemplo de líder populista e autoritário que talvez não tenha chegado a ser fascista, embora tenha passado muito perto disso, quando comandou uma ditadura que não tinha nada de poética, como se pode ver, tanto no relato histórico, como no literário, em que se destaca o brilhante romance autobiográfico Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. De qualquer forma, as políticas trabalhistas de Getúlio produziram um importante e duradouro legado, hoje, infelizmente, em pleno processo de desmonte.

No fascismo é diferente. Como já vimos nas postagens anteriores, o objetivo político deste ataque à verdade é a destruição da base comum de compreensão da realidade, que, em tempos normais, permite a comunicação e o debate entre os diferentes grupos que compõem a sociedade. Na vida social, entendida de modo mais amplo, entretanto, o estrago é ainda maior. O ataque à verdade e à realidade objetiva, por ser irrestrito, transborda da esfera política para os costumes, para a divulgação e entendimento leigo do conhecimento científico, histórico e literário, para a educação e a vida social, criando um ambiente em que nada é verdade. Essa instabilidade na percepção do mundo traz, para o indivíduo, uma sensação de irrealidade, que resulta em insegurança, ansiedade e medo. Sem um acordo a respeito do que é a realidade, cria-se uma situação tal em que ninguém pode criticar o poder, porque não haveria nenhuma base real para fazê-lo. Também significa o abandono da própria individualidade, porque, se não há uma realidade compartilhada socialmente e factualmente objetiva, tudo são opiniões, e apenas a vontade do líder será verdadeira. Então, o abandono dos fatos significa também o abandono da liberdade individual.

Portanto, no populismo comum, a morte da verdade, ainda que chegasse a ocorrer, seria apenas uma casualidade; no fascismo, ela é um objetivo.

Como matar a verdade.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” —Evangelho segundo S. João, 8:32.

Victor Klemperer foi um professor de literatura de origem judaica, que se converteu ao protestantismo, mas teve o azar de viver na Alemanha, durante o período nazista. Sobreviveu. Foi uma das primeiras pessoas que identificaram, na linguagem de Hitler, a ideia fascista que já comentamos bastante, sobre os indivíduos se dividirem entre pessoas de bem e os outros. 

Timothy Snyder, no livro que citamos mais acima, observa que os cronistas das tiranias históricas, como o Victor Klemperer, com seu Diários do nazismo, identificam quatro modos, pelos quais a verdade pode morrer: O primeiro modo de fazê-lo, é ser abertamente hostil à realidade verificável, coisa que se faz apresentando (ou recebendo) imaginações e mentiras como se fossem fatos. O segundo modo é o encantamento shamanístico—a repetição sem fim da mentira que, se não puder torná-la verdade, ao menos fará o ficcional,  plausível, e o criminal, desejável. O terceiro modo é o pensamento mágico ou a franca adoção da contradição, sendo que o pensamento mágico é aquele em que os desejos e fantasias (confessos ou não) conduzem o raciocínio, de modo a se extrair conclusões que não são suportadas pelas premissas previamente adotadas. E, o último modo é a fé deslocada, que convoca o adepto a abandonar qualquer discernimento racional e depositar toda sua confiança no outro. Como os evangelhos são figurativos, vemos, frequentemente, líderes fascistas citando suas passagens: diz, o fascista, “a verdade vos libertará!” Mas não é à verdade objetiva que ele está se referindo. É à verdade do líder. Que pode ser mentira. Ou não.

A fé deslocada termina com você chamando o outro de “mito”. —Bem vindo à irrealidade.

Bolhas e balões de ensaio.

“Sem clareza de linguagem, não há padrão de verdade.” —John Le Carré

Como percebeu Boorstin, no seu livro A Imagem (1962), a ideia de “credibilidade” vem substituindo a ideia de verdade, porque, sem um padrão comum de realidade entre as pessoas, a verdade passa a ser mais um dos aspectos subjetivos da vida social. Na falta de um padrão, então, abre-se o caminho para a fé deslocada, onde não há objetividade: verdade é o que afirma o líder, com a força de sua credibilidade. Michiko Kakutani, que cita Boorstin no seu livro “A Morte da Verdade” (p. 82), ainda comenta que “Alguns aliados de Trump, na extrema direita, também tentam redefinir a realidade em seus próprios termos. Invocando a iconografia do filme Matrix—no qual é oferecida ao herói a escolha entre duas pílulas, uma vermelha (representando o conhecimento e as duras verdades da realidade) e uma azul (representando a ilusão soporífera e a negação)—, membros da alt-direita e alguns grupos de defesa de direitos masculinos falam de “red-pilling the normies”, que significa converter pessoas para suas causas fascistas. Em outras palavras, vender sua realidade alternativa do avesso para fora, na qual pessoas brancas estão sofrendo perseguição, multiculturalismo representa uma grande ameaça, e homens estão sendo oprimidos por mulheres. Alice Marwick e Rebecca Lewis, autoras de um estudo sobre desinformação online, argumentam que ‘uma vez que os grupos tenham sido ‘red-pilled’ num assunto, eles estarão prontos para outras ideias extremistas.'” (Op. Cit., p. 86.)

Kakutani também destaca o papel das redes sociais neste processo de formação e isolamento de “bolhas” de pensamento irrealista, observando que os algoritmos utilizados pelas redes sociais oferecem aos usuários as postagens que são populares e estão de acordo com as tendências momentâneas nos específicos grupos que cada usuário privilegia com seus comentários e “likes,” ao invés de selecionar de acordo com o que é importante ou correto. Assim, os algorítmos das redes não apenas contribuem para a promoção de teorias conspiratórias, nas infindáveis “ilhas de opinião” já formadas, como ajudam aos teoristas conspiratórios isolados a encontrarem seus iguais, chegando ao ponto de eliminar as opiniões divergentes (que, por sua vez, se fecham em suas próprias ilhas), criando comunidades virtuais “muradas” que experimentam suas próprias realidades alternativas e trabalham com seus próprios fatos. (Op. Cit., p. 87-88.)

A par disso tudo, ainda, vemos a prática dos “balões de ensaio”. Lançar um “balão de ensaio”, segundo o jargão consagrado pelo jornalismo, durante a ditadura militar brasileira, significa o vazamento proposital de uma informação, por parte de uma autoridade pública, a fim de verificar-se, de antemão, os possíveis efeitos ou reações que uma determinada medida provocaria, se fosse adotada. No sentido mais amplo que aqui utilizo, significa lançar afirmações (frequentemente na forma de memes nas redes sociais) a fim de testar os limites do que a sociedade e a opinião pública conseguem suportar, num determinado momento, tanto em relação à disrupção da verdade objetiva, quanto em relação à supressão de direitos civis e outras medidas concernentes à montagem paulatina de um aparato autoritário, a que muitos denominam democracia iliberal e alguns afirmam já vigorar no Brasil. Bolsonaro faz isso o tempo todo. Quando usa as redes sociais para lançar memes absurdos ou revoltantes e, em seguida, volta atrás, está testando os limites de aceitação do público brasileiro, enquanto a campanha contínua (dele e de seus partidários) nas redes sociais trabalha para dissolver o padrão consensual de verdade e alargar estes mesmos limites. Na sua versão contemporânea, a estratégia de construção fascista não costuma avançar o sinal, em relação aos limites da Lei. Concentra-se em alargar os limites morais do que se caracteriza como aceitável, socialmente, ainda que permanecendo (mais ou menos) nos limites dessa legalidade formal. Exemplos: quando o líder propõe reduzir o limite de idade dos ministros da suprema corte, de forma a abrir novas vagas que permitam-lhe indicar apadrinhados; quando revoga o Decreto presidencial que havia criado os conselhos de participação popular na condução dos assuntos de Estado de interesse social; quando classifica como sigilosos os estudos que nortearam a proposta oficial de reforma da previdência social.

A ruptura, agora frontal, da legalidade, que ocorre nas redes sociais, completa este quadro. Como a jornalista Carole Cadwalladr demonstra, com relação ao processo político britânico da campanha do Brexit, o advento das redes sociais como o Facebook, o Twitter e o WhatsApp tornou as leis que controlavam o processo político e eleitoral ineficazes, porque as propagandas, memes e postagens se dão num ambiente constantemente mutável e desaparecem sem deixar rastros que possam ser, a posteriori, verificados ou pesquisados. Da mesma forma, os impulsionamentos pagos, que assumem proporções gigantescas, são indecifráveis e anônimos, de forma a inviabilizar qualquer conhecimento quanto aos limites, origem ou montante dos financiamentos eleitorais. Veja:

 

Linguagem, verdade e cinismo

“Linguagem é para os humanos, uma vez observou o escritor James Carroll, o que a água é para os peixes: ‘Nós nadamos na linguagem. Pensamos na linguagem. Vivemos na linguagem.’ É por isto que Orwell escreveu que ‘o caos político está ligado à decadência da linguagem,’ distanciando as palavras do significado e abrindo um abismo entre o objetivo real e o declarado pelo líder.” (Kakutani, M. Op. cit., p. 89.) Quando o uso da linguagem passa a ser mediado por redes sociais fora do controle da Lei, onde os cidadãos podem isolar-se em ilhas virtuais, a informação e as visões daqueles que estão fora do grupo podem ser livremente desacreditadas, criando-se padrões de verdade sem qualquer compromisso com a realidade. Se o processo é, como parece ser, alimentado por fontes tendenciosas de impulsionamento maciço, a polarização e o desvio para a irracionalidade só tendem a aumentar.

Na semana passada, vivi uma experiência curiosa no Facebook. Recebi uma postagem onde a autora debochava do ex-presidente Lula, insinuando que ele seria ignorante e mentiroso por “fingir que estava lendo um livro”. Vou deixar de lado todas as evidentes conotações racistas e classistas do caso. A postagem veiculava uma foto em que  o político segurava o livro “O Aleph”, de Paulo Coelho, como se “o estivesse lendo”, mas o livro aparecia com a capa de ponta-cabeça. A foto, evidentemente adulterada, era algo similar a esta:

Eu tentei argumentar com esta pessoa, mostrando-lhe a capa inalterada do livro em questão, cuja simples observação já seria suficiente para demonstrar que a imagem postada tinha sido modificada e que, portanto, a postagem dela é que era falsa, fazendo dela, repassadora de fakenews, uma mentirosa:

Imagem relacionada

Não houve a menor chance de diálogo. Era como falar com um habitante de um outro planeta, onde a palavra “verdade” não existisse ou tivesse um significado totalmente diferente, que me escapava. A demonstração da falsidade de sua postagem, fez apenas com que esta moça risse e reclamasse da minha audácia em “invadir” a sua página, com observações indesejadas, como se eu fosse alguém que não consegue se alçar a um nível de entendimento e convivência superiores, em que a adulteração de imagens e a divulgação de informações falsas ou verdadeiras tivessem um mesmo e único valor: nenhum. Ao final, me bloqueou (sem deixar de, antes, me xingar, claro.)

Como Michiko Kakutani observa (op. cit. p. 121), “Na internet, onde cliques são tudo, e entretenimento e notícias estão crescentemente embaralhados, conteúdos que são sensacionalistas, bizarros ou revoltantes se elevam para o topo, junto com postagens que apelam cinicamente para as partes reptilianas dos nossos cérebros—para emoções primitivas como medo, ódio e raiva.” E conclui: “No Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt olhou para o papel essencial que a propaganda desempenhou na manipulação das populações da Alemanha Nazista e da Rússia Soviética, escrevendo que ‘num mundo incompreensível e em constante mudança, as massas alcançaram um ponto onde, ao mesmo tempo, acreditam em tudo e em nada, pensam que tudo seria possível e que nada seria verdade’. ‘A propaganda de massas,’ escreveu ela, ‘descobriu que sua audiência estava pronta, a todo tempo, para acreditar no pior, não importando o quão absurdo, e não tinha objeções quanto a ser enganada, porque já assumia toda afirmação como sendo falsa, de qualquer modo. Os líderes totalitários baseavam sua propaganda na premissa psicológica correta de que, sob tais condições, podia-se fazer as pessoas acreditarem na mais fantasiosa das afirmações num dia, e confiar que, se no dia seguinte elas recebessem provas irrefutáveis de sua falsidade, elas se refugiariam no cinismo; ao invés de desertar dos líderes que teriam mentido para elas, protestariam ter sabido, o tempo todo, que a afirmação era uma mentira e iriam ainda admirar os líderes por suas espertezas táticas superiores.” (Op. cit., p. 140.)

Dito isso, não tenho nada a acrescentar.

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