FASCISMO EM GOTAS! – Uma gota de definição

O que é fascismo? 

Seria o fascismo tirania?

–Sim, seria.

Mas nem toda espécie de tirania: você pode ser tirano, sem ser fascista. Como bem observou Madeleine Albright, “Quando alguém fala sobre este assunto, frequentemente surge confusão sobre a diferença entre fascismo e conceitos relacionados, tais como totalitarismo, ditadura, despotismo, tirania, autocracia e assim por diante.”  Por isso, surpreende notar que seja tão difícil definir com precisão algo que, intuitivamente, parece evidente. Que fascismo é…

…o quê, mesmo?

– Bem, como estamos um pouco perdidos, vamos começar pela história. Porque, como bem disse Steven Levitsky, “A História não se repete. Mas rima.”

Umberto Eco explica que o fascismo italiano, de Mussolini, foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que se tornou uma espécie de arquétipo comum para todos os movimentos análogos, não só no caso do Nazismo de Adolf Hitler, mas de diversos outros movimentos, em países como a Inglaterra, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Espanha e muitos outros, incluindo a América do Sul (Brasil, Argentina) e os EUA, com o hoje tristemente famoso “América em Primeiro Lugar“, que bem antes de virar slogan de Trump, era a denominação do mais conhecido movimento fascista norte-americano dos anos 30-40, sob a liderança do aviador Charles Lindbergh. Entretanto,  diz Eco, “o fascismo não possuía nenhuma quintessência e nem sequer uma só essência… O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, um alveário de contradições.”

Nem mesmo foram os movimentos fascistas sempre coesos. A Espanha de Franco, por exemplo, mesmo tendo recebido sangrento apoio do nazismo para vencer a guerra civil contra a república espanhola, recusou-se a entrar na II Guerra Mundial do lado do eixo. O mesmo quanto ao Portugal de Salazar, que também permaneceu neutro.

Desorientador, não é?

– Talvez, por este motivo, muitos autores voltaram-se mais para as atitudes dos movimentos fascistas, do que para suas doutrinas, em busca de traços caracterizadores.

Greenblatt, na sua deliciosa análise política da obra de Shakespeare, ressalta o forte caráter conservador e imobilista, que não é só do fascismo, mas das tiranias em geral: “A tirania tenta envenenar não apenas o presente, mas as gerações que virão, a fim de estender-se para sempre. Não são as exigências da conspiração que fazem de Macbeth, como de Ricardo III, o assassino de crianças. Tiranos são inimigos do futuro.”

Albright, de sua parte, observa que o fascismo recebe energia de pessoas descontentes, aquelas que perderam uma guerra, o emprego, ou tentam se recuperar de alguma humilhação ou do sentimento de que seus países se encontrem em rápido declínio. Ela, talvez não saiba que alguns desses desafortunados gritam “–Petralhas! Nossa bandeira jamais será vermelha!” com sangue nos olhos, mas observa o importante papel do medo, que permite ao discurso fascista “alcançar todos os níveis da sociedade”. Nessa linha de raciocínio, ela logra definir, não propriamente o fascismo, enquanto categoria teórica, mas ao menos o líder fascista: “é alguém que se identifica fortemente com e pretende falar por uma nação ou um grupo inteiros, não está preocupado com os direitos dos outros e está disposto a usar quaisquer meios que forem necessários – incluindo a violência – para alcançar seus objetivos.”

Jason Stanley, por sua vez, enumera e detalha os “sintomas” do fascismo, não só enquanto formas características de prática política, mas também como traços de personalidade de seus líderes e adeptos. Para ele, caracterizariam um movimento fascista:

  1. a rígida divisão, que almeja separar a população entre o “nós” e o “eles,” neste ponto, aproximando o fascismo de algumas formas de comunismo e abrindo a brecha perfeita para as irrealidades como a do “nazismo de esquerda.”
  2. a tentativa de naturalizar diferenças entre os grupos humanos, produzindo uma aparência de suporte natural ou científico para uma hierarquia de valor humano, como fazem para “justificar a inferioridade” de negros, mulheres e outras minorias.
  3. a promoção de uma política de “lei e ordem,” de apelo de massa, rotulando “nós” como “cidadãos de bem” e “eles”, por contraste, como criminosos sem lei, cujo comportamento constitui uma ameaça existencial à virilidade da nação, como seria o caso dos gays, dos petralhas, dos negros.
  4. a ansiedade sexual, na medida em que a hierarquia patriarcal é ameaçada pela crescente demanda por igualdade de gêneros, produzindo bizarrias como a ministra Damares e a demonização da homosexualidade como doença.
  5. a promoção do fanatismo e da irracionalidade por meios propagandísticos, como aprendemos, duramente, com os ataques de impulsionamento de fakenews no WhatsApp.

Finalmente, Levitsky e Ziblat apóiam-se num trabalho de 1978, do cientista político e professor de Yale, Juan Linz, denominado “The Breakdown of Democratic Regimes” para propor uma lista de quatro “sinais de alerta comportamentais” que poderiam ajudar a identificar um político autoritário (não necessariamente fascista,) quando se vê um. Dessa forma, ainda que não tendo conceituado o fascismo, deveríamos nos preocupar quando um político:

  1. rejeita, em palavras ou ações, as regras do jogo democrático,
  2. nega legitimidade a seus adversários,
  3. tolera ou encoraja a violência, ou
  4. apresenta uma inclinação para limitar os direitos civis de seus oponentes, incluindo aí a midia.

Lembra alguém que você conhece? Talvez, um certo capitão reformado?

A par dessas descrições e caracterizações, o que está presente nas idéias de todos os autores aqui comentados, com mais ênfase e insistência, é a noção de que a melhor maneira de evitar-se a tirania em geral, e o fascismo em particular, é pela prevenção, impedindo, por meio dos partidos (que Levitsky classifica como “filtros”) e do sistema de pesos e contrapesos da democracia, que a liderança fascista cresça, se desenvolva e assuma o poder.

Lamentavelmente, esta fase de contenção já fracassou. Aqui, como nos EUA, Hungria, Turquia, Rússia, dentre muitos outros que incluem o Brasil, o líder fascista foi eleito. Assim, mesmo não tendo esclarecido muito bem o que o fascismo é, despeço-me com humildade, esperando que tenhamo-nos aproximado, ao menos um pouquinho, de fazê-lo. E rogo:

–Que Deus ou, dependendo das suas crenças e convicções, o destino, nos protejam!

(Nota: todas as citações em itálico, entre aspas, quando não identificadas com outra origem no próprio texto, referem-se às obras listadas na bibliografia indicada no post de introdução.)
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