FASCISMO EM GOTAS! – Ah!, no meu tempo é que era bom…

O passado mítico.

Quem jamais ouviu alguém lembrar-se, com simpatia nostálgica, daqueles bons tempos, dos anos dourados, em que tudo era melhor que hoje, quando as pessoas eram confiáveis e não havia tanta insegurança e, nem de longe, toda esta corrupção?

Pois, o fato, é que não era assim. A aparência é apenas a forma pela qual as pessoas, geralmente, se lembram e cuja razão profunda está nos estudos de psicologia. Não é preciso nem ir aos freudianos, para recordarmos da tendência que temos de reprimir as memórias dolorosas, os traumas, e conservarmos, do passado, muito mais daqueles momentos de alegria e doçura, do que daqueles de sofrimento físico ou mental. Basta a própria experiência e uma memória honesta.

Jason Stanley cita um trabalho de 2013, dos psicólogos sociais Katie Rotella e Jennifer Reicheson, “Motivados a ‘Esquecer'”, em que fica demonstrada a existência de uma forte predisposição das pessoas a esquecer ou minimizar atos problemáticos de indivíduos pertencentes ao seu próprio grupo social, cometidos no passado. Segundo Stanley:

“Líderes fascistas apelam à história para substituir o registro histórico real por um substituto mítico glorioso que, em suas características, possa servir a seus objetivos políticos e sua meta final de substituir os fatos pelo poder.
[Fascist leaders appeal to history to replace the actual historical record with a glorious mythic replacement that, in its specifics, can serve their political ends and their ultimate goal of replacing facts with power.]” Em Stanley, Jason. How Fascism Works (p. 21). Random House Publishing Group. Kindle Edition.

Jair-Bolsonaro-Nazista
Jair Bolsonaro Nazista (V.T.)

Os exemplos de uso do “passado mítico” são abundantes no tempo e no espaço. Durante a campanha de 2018, no Brasil, vimos Bolsonaro ansiar pela volta da segurança e da paz proporcionadas pelo que ele chama de governos militares, iniciados em 1964, e analtecer os grandes feitos do herói justiceiro daquela era, o coronel Brilhante Ustra. O único problema é que não é verdade. Alguém que viveu este triste passado, ou estudou-o na história, sabe que tudo isso é invenção pura, que nem de longe se aproxima da cruel realidade do que foram aqueles 21 anos.

Até o início dos anos 1970, os governos militares foram uma sucessão de golpes, cada um deles aprofundando mais o autoritarismo que garantia a impunidade para assassinos sádicos, como o citado coronel, praticarem as mais hediondas sandices. O que os caracterizava, muito longe da imaginada segurança e respeito à hierarquia, era a bagunça militar, a anarquia dos quartéis, como muito bem mostrou o jornalista Élio Gaspari na sua detalhada coleção de 5 volumes sobre a ditadura. N’As Ilusões Armadas, nome dado aos dois primeiros volumes da série, cobrindo desde o início da ditadura, até o prenúncio da “abertura política,” com a vitória do MDB nas eleições de 1974, ele assim se manifesta:

“Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que Geisel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples: porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça.” Em Gaspari, Élio. A Ditadura Envergonhada (p. 41). Companhia das Letras, 2002.

Mas, então, porque se dar ao trabalho de inventar um “governo” militar maravilhoso, que nunca existiu, e alardeá-lo como se história fosse? Porque criar um herói justiceiro, na pele de um criminoso psicopata, que se divertia exibindo pais torturados e exangues aos próprios filhos menores? Não seria melhor e mais fácil criar, diretamente, uma utopia a ser perseguida no futuro, como faz o comunismo?

Na realidade, todo fascismo tem seu passado mítico. Desde Mussolini, que pretendia ter ressuscitado o Império Romano do Ocidente, com suas falanges, os fascistas sonham com um passado que nunca houve. O Nazismo acalentou o sonho de uma antiga raça ariana que nunca existiu. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria presidiu a aprovação de uma nova constituição, que ele mesmo descreve como “iliberal” e evocadora do milênio passado, em que o país teria iniciado sua grande trajetória de defesa da Europa cristã (presumivelmente, contra o Império Otomano, muçulmano), cuja retomada fará a Hungria “grande de novo!”

“Teríamos que dizer que uma democracia não precisa necessariamente ser liberal. Apenas porque algo não é liberal, ainda assim pode ser uma democracia.
[We needed to state that a democracy is not necessarily liberal. Just because something is not liberal, it still can be a democracy.]”
 Viktor Orbán, no discurso de Băile Tuşnad, em 26 de julho de 2014.

Segundo os especialistas, o passado mítico, construído, cumpre diversas finalidades para a o programa ideológico fascista, que Jason Stanley assim enumera:

  1. ajuda a criar um “mito de origem” comum ao grupo, raça ou classe dominante, de forma a cimentar um sentimento de união e justificar sua posição superior na estrutura hierárquica de poder do estado fascista.
  2. troca o registro histórico real por um substituto mítico glorioso, que oculta os erros do passado, os fatos desabonadores, os crimes até, e tudo o mais que seria melhor esquecer.
  3. “glamourisa” o patriarcalismo e “naturaliza”, pelo apelo ao tradicionalismo e à formação histórica dos papéis sociais, as posições inferiores das mulheres e das minorias na hierarquia social.
  4. maquia os objetivos de poder fascistas e de submissão social, apresentando-os como padrões historicamente justificados, pela tradição e pela aura mítica do Eldorado perdido.
  5. propicia a fabricação de uma justificativa histórica para o racismo, a opressão social e a xenofobia.
  6. destrói a base de realidade, incluindo aquela a respeito do passado, que necessitamos para alcançar um debate político honesto a respeito do que a nação deveria fazer, quais políticas deveria adotar.

Por estas razões é que encontramos, no fascismo brasileiro, o apelo aos absurdos históricos que tanto vemos nas redes sociais. Aqui, como na Polônia ou na Turquia, na Hungria ou nos EUA, abundam as referências ao “fato” do Partido Nazista “ser de esquerda”. E, no que diz respeito aos aspectos mais locais, viralizam as referências à vitória do bolsonarismo ter acontecido contra um “regime comunista, contra o PT, que arruinou o país.” E se multiplicam os alertas quanto a necessidade de reverter a excessiva demarcação de terras indígenas, que tem “ameaçado a produção agrícola do país.” — Aí, não só não há nenhum compromisso com a verdade histórica, como, ainda, é intencional sua substituição por um passado idealizado que, de uma parte, constrói o mito do Brasil maravilhoso que foi perdido e, de outro lado, atribui tudo que seja negativo – comunismo, nazismo, subversão da ordem no campo, ruína econômica – ao “inimigo.”

“Na retórica dos nacionalistas extremados, este passado glorioso foi perdido por causa da humilhação trazida pelo globalismo, cosmopolitismo liberal e pelo respeito aos ‘valores universais’ tais como a equidade. Estes valores se supõe terem enfraquecido a nação perante desafios reais e ameaçadores de sua existência.
[In the rhetoric of extreme nationalists, such a glorious past has been lost by the humiliation brought on by globalism, liberal cosmopolitanism, and respect for “universal values” such as equality. These values are supposed to have made the nation weak in the face of real and threatening challenges to the nation’s existence.]” 
Em Stanley, Jason. How Fascism Works (p. 4). Random House Publishing Group. Kindle Edition.

Como se viu, na versão brasileira, somam-se ao globalismo, cosmopolitismo liberal e respeito aos “valores universais,” a humilhação trazida pelo “comunismo corrupto e destruidor do PT, partido que monopolizou a corrupção e causou, com suas intenções criminosas, a ruína do Estado brasileiro.”

Com a destruição da história e sua substituição pelo passado mítico, portanto, abrem-se os horizontes para toda uma gama de itens da agenda fascista.

Um dos principais desses itens é a criação do mito do “povo” e a identificação de sua vontade com o discurso do “líder,” na forma de um “populismo qualitativo,” na expressão cunhada por Umberto Eco, que assim o apresenta:

“Para o Ur-Fascismo, os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos, e ‘o povo’ é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime ‘a vontade comum’. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder se apresenta como seu intérprete.” Em Eco, Umberto. O Fascismo Eterno. Ed. Record, 2018. Versão eletrônica.

Grande expressão da “vontade comum do povo, expressada pelo líder,” no Brasil, é a justificativa “mitológica” do racismo, problema histórico premente e insistentemente negado pela minoria dominante branca do país.

Se tomarmos o caso dos EUA como contraste, podemos ver que a narrativa de supremacia branca estadunidense é mais direta e, assim, adota um discurso mais sincero (se é que se possa dizer isso de tal elitismo.) Num país de maioria branca decrescente, mas ainda maioria, onde os negros ainda são, de fato, uma minoria, (embora uma minoria crescente,) o “perigo” de subversão da ordem hierárquica pode ser inserido no discurso ideológico como um “perigo real,” o que faz da manutenção do status “qualitativamente” branco do poder, uma necessidade “justificada” pelos números.

No Brasil, outrossim, pode-se dizer (valendo para os últimos vários séculos) que os brancos sempre foram minoria numérica, embora, ainda assim, elite dominante. (Sim, às vezes até nos “esquecemos” de que a raça branca é minoria no Brasil.) Então, o discurso da ameaça numérica fica inviável, já que, desde há séculos, a maioria (negra) é que é mantida subjugada e subserviente.

Inviabilizado, dessa forma, o discurso supremacista de moldes estadunidenses, resta aos brasileiros brancos e dominantes o mito histórico das “pessoas de bem,” largamente utilizado pela propaganda bolsonarista, cujo conteúdo racista é mal e porcamente dissimulado pela “adoção” de atributos históricos positivos, associados às pessoas da classe média branca, que deseja adquirir armas de fogo para proteger suas propriedades, contrapostos a outros tantos atributos negativos, associados a negros e a outras raças (estas outras, sim, minorias,) como índios e imigrantes latino-americanos, que seriam, “por natureza,” preguiçosos, traiçoeiros e menos inteligentes, de forma que não fariam parte do grupo qualitativo das “pessoas de bem.”

É claro que este tipo de discurso dissimuladamente racista encontrou e encontra eco frequente entre brancos de classe média ou baixa, incomodados com a promoção de valores universais de equidade entre os seres humanos, que colocariam a maioria (negra) em pé de igualdade com eles e, por efeito dos números, qualificados a postular e obter o poder de maioria.

Assim, não se deve tratar as asneiras históricas e as distorções factuais apresentadas pelo fascistas, simplesmente, como expressões cômicas de ignorância. Não se trata disso, mas sim da criação engendrada e intencional de um passado – e, por consequência, de uma realidade contemporânea – alternativas.

Também não é correto só condenar a credulidade dos brasileiros em geral, como se fosse uma fraqueza particular dos trópicos, ao utilizar as redes sociais e grupos de conversa, posto que a máquina de inverdades mantida pelos fascistas nas redes sociais e grupos de mensagens tem sólidas bases na psicologia social, nos preconceitos prevalentes na população do país, além de apoiar-se nas técnicas de propaganda fascista (que, entretanto, não fazem parte de nosso tema de hoje.) Muitos desses elementos, como o “problema da raça negra,” já estavam presentes e atuantes em toda a história do Brasil, mas foram agravados, devido à promoção de valores universais, na fase de predomínio democrático que vivemos desde o final da ditadura militar, especialmente a partir dos governos petistas, que vinham promovendo políticas de cotas e de distribuição de renda que apontavam para a “emergência” dos brasileiros negros invisíveis. Com o bolsonarismo, entretanto, os preconceitos associados à noção de supremacia branca deixaram a fase latente, para assumir uma feição de “reação” contra o ataque à ordem “natural” das coisas, que então vinha se passando.

Só para ver que não estamos sozinhos, nós brasileiros, nesta “fraqueza” da credulidade conveniente, assim descreveu-se a susceptibilidade dos alemães de Weimar, ao discurso mítico nazista:

“…entre os mais fatais defeitos da República de Weimar estava o de que milhões de seus populares acreditavam piamente em coisas que eram verificavelmente não verdadeiras.
[…among the Weimar Republic’s more fatal defects was that millions of its people deeply believed things that were verifiably untrue.]” Em Hett, Benjamin Carter. The Death of Democracy (p. 30). Henry Holt and Co.. Kindle Edition.

Há tanto a dizer sobre a construção de um passado mítico, na ideologia fascista, que se tornaria demasiado extenso fazê-lo neste pequeno artigo. Faço aqui, então, breve menção de outras abordagens, algumas delas muito ricas, sobre o fenômeno.

Stephen Greenblatt, em Shakespeare on Politics, toca tangencialmente no tema, por mais de uma vez. Logo de início, aponta para o subterfúgio utilizado pelo bardo para evitar a rigorosa censura exercida pela monarquia inglesa de seu tempo: localizar a trama num passado distante. Depois, ao discutir o caso de Ricardo III, identifica uma das facetas marcantes de uma tirania fascista moderna (como a democracia iliberal de Orbán):

“O poder tirânico é mais facilmente exercido quando parece que a velha ordem continua a existir. As estruturas consensuais tranquilizadoras podem, agora, estar esvaziadas e meramente decorativas, mas elas ainda estão nos seus lugares, de modo que os passantes, os que desejam segurança psicológica e senso de bem-estar, possam persuadir-se de que o reinado da lei está mantido.
[Tyrannical power is more easily exercised when it appears that the old order continues to exist. The reassuring consensual structures may now be hollowed out and merely decorative, but they are all still in place, so that the bystanders, who crave psychological security and a sense of well-being, can persuade themselves that the rule of law is being upheld.]” Em Greenblatt, Stephen. Tyrant: Shakespeare on Politics (p. 101). W. W. Norton & Company. Kindle Edition.

Michiko Kakutani, na obra indicada na bibliografia básica, faz uma discussão muito rica sobre o pós-modernismo e suas ligações com a liquefação do conceito de verdade histórica, trazendo as preocupações de vários estudiosos do tema com o fato de que os “pós-modernistas têm implicado não apenas que todas as verdades são contingentes, mas que ‘não é somente fútil, como positivamente ruinoso, aspirar a elas.'” Apresenta também os problemas e riscos trazidos pela adoção extremada do multiculturalismo, que “poderia levar à noção perigosamente reducionista de que ‘o conhecimento sobre o passado é simplesmente uma construção ideológica destinada a servir interesses específicos, tornando a história uma sequência de mitos que estabelecem ou reforçam identidades de grupos.'” Na sequência, Kakutani faz um alerta quanto às aplicações destas noções pós-modernistas à ciência, que preparam o caminho para os anti-vacinas e negadores do aquecimento global – sem mencionar os terraplanistas, discutidos indiretamente no último post – “que se recusam a aceitar as opiniões consensuais da maioria esmagadora dos cientistas.”

Termino citando (a empréstimo de M. Kakutani, op. cit.) o alerta profético de George Orwell, num ensaio de 1943:

“O que é peculiar de nossa própria era é o abandono da ideia de que a história poderia ser escrita verdadeiramente. No passado, as pessoas mentiam deliberadamente, ou conscientemente coloriam o que escreviam, ou lutavam em busca da verdade, bem sabendo que cometeriam forçosamente muitos erros; mas, em cada caso, elas acreditavam que ‘fatos’ existiam e eram mais ou menos descobríveis. É exatamente esta base comum de concordância, com suas implicações de que seres humanos são todos de uma única espécie de animal, que o totalitarismo destrói. A teoria nazista, de fato, especificamente nega que tal coisa como ‘a verdade’ exista.
[“What is peculiar to our own age is the abandonment of the idea that history could be truthfully written. In the past people deliberately lied, or they unconsciously coloured what they wrote, or they struggled after the truth, well knowing that they must make many mistakes; but in each case they believed that ‘facts’ existed and were more or less discoverable.” “It is just this common basis of agreement…, with its implication that human beings are all one species of animal, that totalitarianism destroys. Nazi theory indeed specifically denies that such a thing as ‘the truth’ exists.] Em Kakutani, Michiko. The Death of Truth (p. 55). Crown/Archetype. Kindle Edition.

p.s. Este post é dedicado à minha cunhada Débora e a sua filha Valentina.
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